Quinta-feira, Abril 20, 2006

Já que ninguém mais se habilita a postar por aqui ...

... queria partilhar e comentar uma notícia que achei curiosa. Hoje o Portal Terra trazia, entre outras, a seguinte manchete: "Estado de SC vai fornecer Viagra a tetraplégico". Trata-se de uma decisão do Juizado Especial Federal Cível de SC que, por decisão da juíza Marjorie Freigerger, determinou que a Secretaria Estadual da Saúde forneça Viagra a um homem que, há três anos, ficou tetraplégico num acidente de moto. O fato que é o Estado já havia negado o fornecimento desse medicamento, alegando que este não era "imprescindível" à manutenção da saúde do sujeito em questão.

É uma alegação no mínimo interessante, porque mostra que o Estado não é capaz de tratar às pessoas de forma igual, sim, mas considerando suas diferenças. Não é preciso ser especialista para imaginar que alguém que tenha se tornado tetraplégico tenha necessidades "imprescindíveis" significativamente diferentes daquelas necessidades "imprescindíveis" de outros cidadãos. Precisou-se onerar ainda mais o nosso sistema judiciário para se chegar a conclusão de que tal gesto se justifica simplesmente porque "devolve ao cidadão um mínimo de dignidade", segundo consta na decisão judicial. Afinal, a Constituição Federal não garante apenas o "direito à vida", mas o direito à uma "vida digna", como bem colocou a sensata juíza.

Cabe dizer que a matéria ressalta que o autor do processo vinha sofrendo de depressão desde o acidente, fato que foi devidamente considerado na decisão. No entanto, independentemente disso, penso que qualquer caso semelhante (ou correlato) deveria ser considerado "especial" por parte do Estado e suas instituições, sem que fosse necessário acionar a "justiça" para garantir o direito ao bem estar e à cidadania.

De qualquer forma, é um bom motivo para pensarmos sobre o que realmente estamos falando quando falamos em "direitos humanos".

6 Comments:

Anonymous Édi said...

Caramba, a questão é complexa. Quantos comprimidos satisfazem a necessidade especial??? Bem deixa pra lá, o custo deve ser tão pequeno comparativamente a outos medicamentos que o estado banca que não vale a pena mesmo negar o afrodizíaco pois, pelo que tudo indica, ele opera milagres até para quem esta numa sofredora condição de tetraplégico. OK Marjorie vc esta c/ a razão.

4/20/2006 9:22 PM  
Blogger Helena Máximo said...

Tratar os iguais de forma igual e os desiguais de forma desigual na medida de sua desigualdade. Quem disse isso mesmo? Sorte de quem consegue distinguir perfeitamente o momento de e a medida para usar esse princípio justamente.

4/21/2006 8:36 AM  
Blogger Rolf Viggiano said...

A frase original é do Carl Marx. O princípio é (deve ser) usado processualmente também. Bem usado pela juíza, como pudemos ver.
Até não concordo com algumas decisões dela mas, no geral, é excelente juíza.
Trabalhei com ela :P

4/21/2006 9:19 AM  
Blogger Banido said...

É...atualmente temos um grande dilema a elucidar....

Direitos Humanos X Politicamente correto

4/21/2006 10:09 PM  
Blogger Mythus said...

Helena: tem uma referência a isso na carta aos moços de Rui Barbosa.

Eu acredito que hoje tem que entrar na justiça mesmo, porque existem milhares de brasileiros vivendo abaixo da linha da miséria que desconhecem qualquer justiça e que o estado tem condições financeiras de sustentar de forma digna a cada um. O caminho judicial acaba se tornando o único meio viável a reparar esse desvio, e como são poucos que se aventuram por essas veredas acaba sendo possível alcançar justiça para esses poucos.

Como disse o prefeito de João Pessoa uma vez a mim (eu fui cumprimentá-lo pelo mandato, quando saíamos, coincidentemente do mesmo restaurante ao mesmo tempo): "as necessidades são grandes, o dinheiro é pouco, a gente faz o que pode aqui e acolá, mas o cidadão tem que ajudar" (ele falava das dificuldades de atingir um consenso sobre onde investir nas reuniões com as comunidades).

4/25/2006 1:27 PM  
Blogger Mythus said...

Sem reformar o cidadão brasileiro, é impossível proporcionar a todos os brasileiros e residentes no Brasil a dignidade de vida.

4/25/2006 1:31 PM  

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